SCENE_01
Entre A Molheira De Galo E O Segundo Prato
O tio Ademar ainda segura a faca elétrica quando solta a pergunta, uma gota de molho escorrendo da molheira em formato de galo até o polegar dele. A mesa de plástico range sob a toalha bordada emprestada da avó, o rádio toca o jogo baixinho na cozinha, e ele se recosta na cadeira que reservou para si uma hora antes. 'E aí, quando você vai arranjar um emprego de verdade?' sai entre duas garfadas de peru, como se estivesse perguntando se você quer mais farofa.
SCENE_02
A Conta Que Você Faz Enquanto Repete O Arroz
Você ri para disfarçar e passa os vinte minutos seguintes perto do aparador fazendo contas de cabeça: o que precisaria dizer para ele entender, quantos anos isso levaria, se vale a pena explicar. Você repete um arroz que nem queria só para ter onde ficar parado. Na sobremesa, você já evitou a torta duas vezes e saiu para buscar gelo que ninguém pediu.
SCENE_03
O Que A Cadeira Reclinável Não Audita
Ademar avalia seu ano inteiro pelo que cabe entre duas garfadas de peru. Ele nunca viu as partes do seu trabalho que não cabem numa frase de mesa, e não vai ver, por mais afiada que seja sua resposta. A leitura mais precisa é que a pergunta dele mede o que cabe numa pausa da ceia, não o que seu trabalho realmente é. Antes de sair naquela noite, você anota três fatos concretos sobre seu trabalho no verso de um guardanapo e guarda no bolso do casaco.