SCENE_01
O projeto fechou e ninguém lhe contou para reclamar
Você senta na reunião de segunda-feira e o chefe anuncia que a proposta saiu. Três meses de trabalho, um cliente importante, o tipo de vitória que deveria contar. A sala explode em palmas. Seu colega ao lado — o que só entrou há seis meses — também bate palmas. Você sente a própria mão subir, e no mesmo instante pensa: não tenho direito. Pensa em Marina, que estava aqui há oito anos. Pensa em Roberto, que treinou metade desse projeto. Pensa que se celebrar isso agora está dizendo que mereciam sair. A sua mão cai. Você segue em silêncio.
SCENE_02
A regra privada que não consegue nomear
Não é que você ache que não merecia ficar. É que a decisão pareceu completamente arbitrária — e se foi arbitrária, você não pode se apropriar da permanência. Você fica rodando a lógica nos momentos vazios: por que você? O que você fez diferente que eles não fizeram? Não encontra resposta que se sustente. E porque não encontra, cada coisa boa que acontece se torna suspeita. Se você não consegue explicar por que ficou, então estar bem aqui é aceitar que não mereceu — e isso significa que eles mereciam menos ainda. Você fica preso entre comemorar e confessar uma injustiça que não sabe nomear.
SCENE_03
Quando duas frases deixam de ser a mesma coisa
Aqui está o nó: você manteve o seu emprego é uma sentença. Eles perderam o deles é outra. Não há resposta que torne isso limpo — essa é uma característica das demissões, não evidência de que você está perdendo algo. A arbitrariedade é real. Demissões raramente fazem sentido perfeito de ambos os lados. Mas você pode separar as duas coisas: reconhecer que a situação foi confusa não significa que você está em débito com quem saiu. Isso significa que as demissões foram confusas. Você consegue estar bem com o projeto. Não está roubando nada de quem não está mais aqui ao fazer isso.