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A ciência do favoritismo familiar

A maioria dos pais insiste que ama os filhos 'igualmente'.

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Transforme um pensamento que esta pesquisa explica em um passo claro.

O PENSAMENTO

Nunca serei o favorito desta família

SUA RESPOSTA GRAVADA

Essa contabilidade de favoritismo é erro de aritmética deles, não medida real de mim.

UM PASSO PRIVADO

Escreva uma previsão privada do que acontecerá em uma interação familiar futura — quem será favorecido, como você será tratado. Depois, releia após o evento e marque o que realmente ocorreu versus o que sua interpretação preencheu.

Décadas de pesquisa sobre o tratamento diferencial parental — liderada em grande parte pelos estudos de longo prazo da socióloga Jill Suitor com famílias da região de Boston — contam uma história mais complicada: a maioria das mães sente, em particular, mais proximidade com um dos filhos, a maioria hesita em admitir isso abertamente, e os filhos adultos costumam errar sobre quem é o favorito. Enquanto isso, a ideia popular de que a ordem de nascimento por si só explica a personalidade — o primogênito mandão, o caçula rebelde — já foi testada em dezenas de milhares de pessoas e, na maior parte, não se sustentou. O que prevê o bem-estar na vida adulta não é a posição na ordem de nascimento, mas se você se sentiu, ou ainda se sente, escolhido a dedo. Veja como a ciência saiu da teoria popular para as pesquisas com famílias reais.

~70%das mães entrevistadas indicaram um filho específico com quem se sentiam mais próximas — apesar de a maioria se mostrar visivelmente relutante em admitir que tinha um favorito39%dos filhos adultos identificaram corretamente qual irmão a mãe realmente favorecia — pouco melhor que o acaso na maioria das famílias, e pior ainda entre quem não era o favorito~15%dos filhos adultos no estudo sobre sintomas depressivos perceberam que a mãe tratava todos os filhos igualmente — a grande maioria percebeu alguma forma de tratamento diferencial20,000+pessoas na Alemanha, nos EUA e na Grã-Bretanha analisadas no maior teste já feito sobre os efeitos da ordem de nascimento na personalidade — sem efeito relevante em nenhum traço do Big Five

Como a ciência mudou

  1. 1976

    Frances Schachter e colegas apresentam a teoria da desidentificação entre irmãos na Developmental Psychology: irmãos, especialmente os de idades próximas, exageram ativamente suas diferenças entre si para reduzir a rivalidade e a comparação — ou seja, muitos irmãos 'opostos' se tornaram diferentes mais do que nasceram diferentes.

  2. 1996

    O livro Born to Rebel, de Frank Sulloway, populariza a ideia de que a ordem de nascimento em si molda a personalidade ao longo da vida — primogênitos convencionais e voltados à realização, caçulas rebeldes e propensos ao risco — reavivando uma teoria popular centenária com novos estudos de caso históricos.

  3. 2006

    Jill Suitor e colegas publicam 'I'm Sure She Chose Me!' na Family Relations, comparando diretamente os relatos de mães e filhos adultos: os filhos acertavam bastante sobre se a mãe tinha um favorito, mas erravam muito mais sobre qual irmão era — e quem não era o favorito costumava ser quem mais tinha certeza de que era.

  4. 2007

    Em 'Mothers' Favoritism in Later Life', Suitor e Karl Pillemer relatam que, em entrevistas com 275 mães da região de Boston, cerca de 70% indicaram um filho específico com quem se sentiam mais próximas, 79% indicaram um cuidador futuro preferido e 73% indicaram o filho com quem mais discutiam — apesar de a maioria das mães mostrar-se visivelmente relutante em admitir que tinha um favorito.

  5. 2008

    Suitor, Sechrist, Plikuhn, Pardo e Pillemer sintetizam o modelo emergente de 'diferenças dentro da família' na Current Directions in Psychological Science, argumentando que o tratamento diferencial parental (PDT, na sigla em inglês) precisa ser estudado ao longo de toda a vida, não só na infância, já que o favoritismo continua mudando conforme pais e filhos envelhecem.

  6. 2010

    Pillemer, Suitor e colegas relatam no Journal of Marriage and Family que filhos adultos que percebiam que a mãe favorecia um irmão — ou os desfavorecia — apresentavam mais sintomas depressivos na meia-idade, e que o efeito valia tanto para o filho favorecido quanto para o desfavorecido, não apenas para quem ficava de fora.

  7. 2015

    Rohrer, Egloff e Schmukle publicam na PNAS o maior teste já feito sobre efeitos da ordem de nascimento, analisando mais de 20 mil pessoas na Alemanha, nos EUA e na Grã-Bretanha: a ordem de nascimento não mostrou efeito relevante sobre os traços de personalidade do Big Five, contradizendo diretamente a narrativa ao estilo Sulloway de que a posição no nascimento determina a personalidade.

O que as pessoas acreditam vs. o que os dados mostram

A crençaSe os pais dizem que não têm um favorito, é porque não têm.

Os dadosEm entrevistas, cerca de 70% das mães indicaram em particular um filho com quem se sentiam mais próximas, mesmo que negar publicamente o favoritismo seja a norma social. Suitor e Pillemer observam que as mães se mostravam visivelmente relutantes em admitir isso — essa relutância em dizer em voz alta não é prova de que não esteja acontecendo.

A crençaVocê sempre sabe quem é o favorito do seu pai ou da sua mãe — sentiu isso a vida toda.

Os dadosOs filhos adultos acertavam bastante sobre se a mãe tinha um favorito, mas erravam muito mais sobre qual irmão era — e quem não era o favorito costumava ser quem mais tinha certeza de que era: uma lacuna documentada entre percepção e realidade, não um sexto sentido confiável.

A crençaA ordem de nascimento determina sua personalidade — primogênitos são líderes natos, o caçula é sempre o rebelde.

Os dadosO maior teste dessa afirmação, com mais de 20 mil pessoas em três países, não encontrou efeito relevante da ordem de nascimento em nenhum dos traços do Big Five. Sejam quais forem as diferenças que os irmãos desenvolvem, a mera posição de nascimento não é o mecanismo por trás delas.

A crençaSó o filho que não foi o favorito sai machucado pelo favoritismo — o favorito sai ileso.

Os dadosO tratamento materno diferencial percebido previu mais sintomas depressivos na meia-idade tanto para o filho favorecido quanto para o desfavorecido. O filho favorecido costuma carregar pressão extra, culpa e relações tensas com os irmãos, em vez de escapar dos efeitos.

A crençaIrmãos que acabaram completamente diferentes simplesmente têm naturezas diferentes — o favoritismo não tem nada a ver com isso.

Os dadosA pesquisa sobre desidentificação entre irmãos mostra que eles, especialmente quando têm idades próximas, exageram ativamente suas diferenças como estratégia para reduzir a rivalidade e a comparação. A dinâmica familiar, incluindo quem um dos pais escolhe a dedo, ajuda a moldar essas identidades 'opostas' em vez de ficar de fora delas.

TESTE-SE · Quanto você sabe desta ciência?

  1. 01 Em entrevistas com mães da região de Boston, qual foi a proporção que indicou em particular um filho com quem se sentia mais próxima?

    Cerca de 70% das 275 mães entrevistadas indicaram um filho específico com quem se sentiam mais próximas, mesmo que negar publicamente o favoritismo seja a norma social e a maioria hesitasse em dizer isso abertamente. fonte

  2. 02 Segundo 'I'm Sure She Chose Me!' (Suitor et al., 2006), qual foi a precisão dos filhos adultos ao apontar qual irmão a mãe realmente favorecia?

    Os filhos acertavam bastante sobre se a mãe favorecia alguém, mas apenas cerca de 39% acertaram qual irmão era — e quem não era o escolhido costumava ser quem tinha mais certeza de que era. fonte

  3. 03 O que a teoria da desidentificação entre irmãos (Schachter et al., 1976) propõe?

    Schachter e colegas constataram que a desidentificação era mais acentuada entre irmãos de idades próximas, que adotam interesses, traços e papéis distintos como estratégia para reduzir a rivalidade e a comparação — diferenças que são em parte construídas, não só natas. fonte

  4. 04 O que concluiu o maior estudo sobre ordem de nascimento e personalidade (Rohrer, Egloff & Schmukle, 2015)?

    Entre mais de 20 mil pessoas na Alemanha, nos EUA e na Grã-Bretanha, a ordem de nascimento não teve efeito relevante sobre extroversão, estabilidade emocional, amabilidade, conscienciosidade ou abertura — contradizendo a afirmação popular de que a posição de nascimento determina a personalidade. fonte

  5. 05 Segundo o estudo de 2010 na Journal of Marriage and Family, o bem-estar de quem foi afetado pelo tratamento materno diferencial percebido?

    Pillemer, Suitor e colegas constataram que o tratamento diferencial percebido previu mais sintomas depressivos na meia-idade tanto para o irmão favorecido quanto para o desfavorecido — o favoritismo tem custos até para o filho que se beneficia dele. fonte

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