SCENE_01
Contar cadeiras antes de cumprimentar
Você entra na sala de jantar e os olhos vão direto para a mesa antes de irem para qualquer rosto. Lá está de novo: seu lugar, com ou sem cartãozinho, encaixado na ponta, perto da porta da cozinha e da cadeirinha alta. A boa conversa acontece dois metros adiante, abafada pelo som dos pratos. Você ainda nem sentou e a noite já chega com um veredito grudado nela.
SCENE_02
A sentença antes da sobremesa
A cadeira vira um ranking. Você lê a distância até a cabeceira como uma medida pública de o quanto deixaram você entrar esse ano, e organiza a noite inteira em torno disso: ri um pouco mais alto na direção da conversa principal, inclina a cadeira para dentro, guarda um comentário para que ele viaje mesa abaixo e prove que você também pertence ali. Na hora da sobremesa, já argumentou um caso inteiro por um lugar que nunca escolheu.
SCENE_03
Conferir a logística em vez do veredito
Depois, em casa, você desenha a mesa de memória: a tomada que a cadeirinha precisa, a porta por onde passam os pratos, a tábua extra colocada por causa dos primos. Seu lugar bate mais com a lógica de servir do que com qualquer hierarquia. Você não precisa que ela confirme isso para testar. Na próxima visita, repara primeiro nas tomadas e nas portas, e deixa essa ser a história mais chata e mais certa.