SCENE_01
Na cozinha, entre a pia e o prato esquecido
Você está juntando as coisas do jantar sem pressa, tentando parecer ocupada(o) com qualquer detalhe banal. Aí vem a frase atravessada, sem som: temo que alguém pergunte há quanto tempo isso dura. Não é a pergunta em si; é o segundo seguinte, quando você precisaria admitir que o assunto já está ali faz tempo.
SCENE_02
O número que vira acusação
Na sua cabeça, a pergunta não parece curiosidade. Ela soa como contagem, prova, saldo. Você imagina o rosto da outra pessoa mudando, e já responde antes mesmo de alguém falar: muda de assunto, exagera o cansaço, deixa a conversa passar. O preço é pequeno no instante e alto depois: vocês seguem circulando o mesmo tema sem encostar nele.
SCENE_03
Trocar a contagem pela cena real
Há uma leitura mais precisa escondida aí: a pergunta não mede valor nem sentença; só tenta dar forma a um assunto que já ocupa espaço. Você não precisa resolver tudo agora. Pode abrir o bloco de notas do celular e escrever, em privado, uma frase simples para si: “Se essa pergunta vier, eu vou responder sem me explicar demais.”