SCENE_01
O número que você recalcula em frente ao espelho
Você está escolhendo a roupa para um segundo encontro, e no meio do zíper se pega recalculando de novo: quem veio antes, em que ordem, se hoje à noite move o total na direção errada. O pensamento chega como sempre: estou tentando me redimir. Não é empolgação. É auditoria.
SCENE_02
O livro-caixa que você mantém atrás do sorriso
Em algum momento você parou de acreditar que podia simplesmente estar presente com alguém — cada decisão sobre seu corpo se lê como saque ou depósito numa conta que você não abriu. Então você compensa: se oferece para o café da comunidade no domingo seguinte, manda um versículo para uma amiga, aceita coisas que não quer, tudo parcelas silenciosas para que o saldo se aproxime de zero.
SCENE_03
O veredito que nunca existiu
Eis a leitura mais precisa: nunca existiu um livro-caixa, nenhum tribunal proferiu veredito, ninguém registra parcelas contra o seu valor. Você não deve a ninguém um plano de pagamento por ter um corpo e um passado. Antes de sair do espelho hoje, nomeie baixinho uma coisa que você escolhe para este encontro só porque quer — e deixe que seja o único lançamento.