SCENE_01
Terça à noite, sozinho no corredor
Você abre a porta da academia que fica a dois quarteirões de casa. Dentro, alguém na sua idade levanta peso. Alguém mais velho faz alongamento no tapete. Você nota o próprio reflexo na porta de vidro — cabelo grisalho, coluna que já reclama. Entra na sua cabeça: isso aqui é para quem começou aos vinte e cinco, aos trinta. Não para quem está passando dos cinquenta e nunca pisou num lugar desses.
SCENE_02
O que essa leitura te custa
Você volta para casa. Não se inscreve. Diz a si mesmo que quando a rotina ficar mais leve — talvez em junho, talvez no ano que vem — aí sim você tenta. Semanas depois, um amigo comenta que começou a nadar. Você sente alívio de que não foi você, porque teria sido ridículo. A dor nas costas que você sentia mês passado ainda está lá. A frase que você se diz — "eu não sou uma pessoa de exercício" — fica cada vez mais verdadeira, não porque você nasceu assim, mas porque confirmou isso em si mesmo naquela noite, sozinho.
SCENE_03
O que você não viu no espelho
Identidade não é um passaporte que você recebe ao nascer. É um rascunho que você reescreve toda semana com o que faz. Aquela pessoa levantando peso? Ela não começou porque já era "alguém que se exercita". Ela se tornou isso porque escolheu cinco repetições e depois dez e depois quinze. A automaticidade não espera por uma vida mais calma ou por você ter trinta anos novamente. Ela espera por um passo que caiba no barulho que você tem agora. Um alongamento de três minutos no seu quarto. Uma volta no quarteirão depois do café. Você não vira essa pessoa para depois começar. Você começa, e a identidade te alcança.