REALITYWIPE

CRONOLOGIA_DE_PESQUISA

A ciência da carga doméstica desigual: por que 'basta pedir' não resolve nada

Durante décadas, a briga pelas tarefas domésticas era medida em afazeres: quem lava a louça, quem faz a roupa. Mas o peso mais pesado é invisível — antecipar que a escola vai pedir uma autorização, decidir para qual pediatra trocar, lembrar do filtro da geladeira antes que vença. A pesquisa desde os anos 1980 saiu de contar tarefas para mapear esse trabalho cognitivo, e sempre encontra a mesma coisa: uma pessoa carrega o mapa mental da casa, a outra espera receber instruções. 'Eu ajudo' e 'é só pedir' presumem, em silêncio, de quem já é aquele trabalho. Veja como a ciência construiu esse quadro, e de onde vêm os roteiros.

Como a ciência mudou · 19892024

  1. 1989

    Arlie Hochschild publica The Second Shift, com base em entrevistas e estudos de tempo com casais de dupla renda na região da Baía de São Francisco: somando trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidado dos filhos, as mães empregadas trabalhavam cerca de um mês extra de dias de 24 horas por ano em comparação com os maridos.

  2. 2000

    Scott Coltrane revisa mais de 200 estudos sobre trabalho doméstico dos anos 1990 no Journal of Marriage and Family: apesar do aumento do emprego feminino, as mulheres ainda faziam cerca do dobro das tarefas domésticas rotineiras em relação aos homens, com a ideologia de gênero como um preditor persistente de quem fazia o quê.

  3. 2017

    A cartunista francesa Emma publica 'Fallait demander' ('Era só pedir'), uma tirinha sobre um marido que acredita genuinamente que 'ajuda' ao esperar que lhe digam o que fazer — apresentando o termo 'carga mental' (charge mentale) a um público global pela primeira vez.

  4. 2019

    Allison Daminger publica 'The Cognitive Dimension of Household Labor' na American Sociological Review, com base em 70 entrevistas com 35 casais: ela modela o trabalho cognitivo em quatro etapas — antecipar necessidades, identificar opções, decidir entre elas e monitorar os resultados — e constata que as mulheres fazem mais, em especial, a antecipação e o monitoramento.

  5. 2020

    Daminger publica 'De-gendered Processes, Gendered Outcomes' na American Sociological Review: mesmo casais que acreditam na igualdade descrevem sua divisão de tarefas como um processo neutro e prático — o que lhes permite aceitar um resultado marcado pelo gênero sem enxergá-lo como um problema de gênero.

  6. 2023

    O National Centre for Social Research britânico publica British Social Attitudes 40 (com dados de 2022 do International Social Survey Programme): 63% das mulheres dizem fazer mais do que sua parte justa do trabalho doméstico, contra 22% dos homens — embora uma grande maioria de ambos afirme que as tarefas deveriam ser divididas igualmente.

  7. 2024

    Weeks e Ruppanner publicam 'A Typology of US Parents' Mental Loads' no Journal of Marriage and Family, entrevistando 3.000 pais e mães dos EUA em sete áreas: as mães carregam 71% da carga mental da casa no geral, e especificamente 79% das tarefas cognitivas diárias 'centrais', contra 37% dos pais, que se concentram mais em tarefas episódicas como finanças e reparos.

Ver arquivo de pesquisa completoem númerosToda a pesquisa